Da miséria e das desgraças renasce uma nova alma.
A carta abaixo nos apresenta um mundo de sentimentos de um combatente da Primeira Guerre Mundial: dor, tristeza, saudade, depressão, esperança...
29 de Janeiro de 1916
França
Queridos pais,
Então como estão, vão bem? A mãe está melhor das costas? E o pai como tem passado com os "bicos de papagaio"? Está melhor? Espero sinceramente que sim.
Isto aqui é muito ruim, não o desejo a ninguém. Desde que aqui cheguei nunca mais tomei banho porque há pouca água. Passamos muita fome e chegamos ao ponto de até comer ratos. Já não me lembro de ver a luz do dia, passamos o tempo todo no interior das trincheiras. É muito triste e doloroso ver os nossos amigos partirem e serem enterrados como se fossem animais. Mas o pior foi o que aconteceu na última 4ª feira. Um dos nossos, do pelotão, apanhou com um estilhaço de granada na perna. Para que ele não morresse, a enfermeira teve que lhe amputar a perna. Foi tudo feito à minha frente e a sangue frio. Ainda estou a ouvir os gritos... Desde esse dia que não prego olho.
Cada vez que me lembro do pôr-do-sol do Marão a escapar-se por entre os picos com neve quando ia levar a Bonita e a Princesa a pastar, sinto uma tristeza medonha na alma... Mas não perco a esperança de um dia ver tudo isso outra vez!
Tenho aqui o Joaquim, à minha beira. Manda muitas saudades aos pais dele. Também pergunta pela Lucília. Quer saber se ela já arranjou outro. É que ele está fiado que, quando voltar, casa com ela.
E o tio Eduardo Cesteiro? Tem andado melhor do reumatismo? Mande-lhe um abraço meu.
Pronto, vou-me despedindo com estas letras cheias de amargura e tristeza. Mas não desanimeis porque me sinto com forças e capaz de sair disto tudo com vida e vos abraçar assim que puder.
O Joaquim manda saudades à Lucília. Despeço-me agora.
Isto aqui é muito ruim, não o desejo a ninguém. Desde que aqui cheguei nunca mais tomei banho porque há pouca água. Passamos muita fome e chegamos ao ponto de até comer ratos. Já não me lembro de ver a luz do dia, passamos o tempo todo no interior das trincheiras. É muito triste e doloroso ver os nossos amigos partirem e serem enterrados como se fossem animais. Mas o pior foi o que aconteceu na última 4ª feira. Um dos nossos, do pelotão, apanhou com um estilhaço de granada na perna. Para que ele não morresse, a enfermeira teve que lhe amputar a perna. Foi tudo feito à minha frente e a sangue frio. Ainda estou a ouvir os gritos... Desde esse dia que não prego olho.
Cada vez que me lembro do pôr-do-sol do Marão a escapar-se por entre os picos com neve quando ia levar a Bonita e a Princesa a pastar, sinto uma tristeza medonha na alma... Mas não perco a esperança de um dia ver tudo isso outra vez!
Tenho aqui o Joaquim, à minha beira. Manda muitas saudades aos pais dele. Também pergunta pela Lucília. Quer saber se ela já arranjou outro. É que ele está fiado que, quando voltar, casa com ela.
E o tio Eduardo Cesteiro? Tem andado melhor do reumatismo? Mande-lhe um abraço meu.
Pronto, vou-me despedindo com estas letras cheias de amargura e tristeza. Mas não desanimeis porque me sinto com forças e capaz de sair disto tudo com vida e vos abraçar assim que puder.
O Joaquim manda saudades à Lucília. Despeço-me agora.
Do vosso filho
Teo.
